terça-feira, 3 de junho de 2008

Amizade conveniente

Hoje acordei com saudade de ter um amigo por perto. De jogar conversa fora, de dar aquelas velhas gargalhadas ou simplesmente de olhar para o tal amigo e desvendar suas mensagens codificadas, sejam elas quais forem (através de um olhar, de um gesto, de meias palavras ou de seu próprio silêncio). Li certa vez que “amigos são anjos que Deus colocou a nossa volta”, será que isso bate com a realidade??
Só acho uma tarefa um tanto quanto difícil. Imagina entender a alma alheia? Decifrar códigos, saber suas cores preferidas, o que gosta ou que não gosta, aceitar numa boa suas opiniões (mesmo tendo a sua totalmente contrária) e acima de tudo apoiar-lhe quando as chances de acertos são nulas e “seu amigo” não enxerga isto.
A probabilidade de ser ter um amigo fiel – justo – perfeito é de 0,05% (acha pouco?) então saia pelas ruas e pergunte ao número de pessoas que quiser se este ou aquele já não foi traído por um amigo??? Cara, você vai se surpreender... As pessoas se traem a todo instante. E segurar nas mãos esse troféu de “sou o melhor dos amigos” já não está mais em cogitação.
O que mais se vê é o título de “colega”. “Colega de trabalho”, “colega do curso”, “colega da escola”, “colega da rua”, “colega da vida” e assim vai. São poucos os que se orgulham da amizade porque nem todos estão aptos a serem 100% sinceros a uma outra pessoa que não lhe trará beneficio algum, a não ser o de ser seu pinico, sua saída nas horas mais complicadas.
Amizade entre o sexo oposto então, vixi, é um caso a parte (literalmente falando e no mais esdrúxulo sentido mesmo). Você não pode sair com um amigo (sendo vc uma mulher) que os olhos alheios já te detonam... Ligar, mostrar o afeto com carinhos, nossaaa é um pecado mortal aos bons costumes. Homem com homem e mulher com mulher (é assim que se aprende logo de cara com seus seis ou sete anos na famosa fila do primário).
Quanto absurdo!
Pelo menos sempre fui contra a qualquer regra imposta pela sociedade. Sempre estava na fila junto com os meninos, me vestia como tal (ah, mais o bom e velho baton vermelho estava nos lábios – talvez para psicologicamente me lembrar da minha feminilidade), gostava de carrinhos, de skate, bola e até tinha partes das unhas comidas devido aos intensos campeonatos de bolinha de gude hahaha).
Ahhh... vivi minha infância decentemente (e nunca me esqueci que era menina, pois logo passados estes surtos eu me lembrava da minha boneca sentada na minha cama, como que esperando a menininha escondida dentro de mim).
A maioria dos meus “colegas” eram meninos mesmo. Eu me sentia confortável com eles. Eram mais sinceros e autênticos. Não tinham frescuras e me tratavam de igual para igual. A coisa só mudou quando eles (meus colegas) passaram a me enxergar como uma menina de fato. Mas nessa época eu já não me empolgava mais com carrinhos ou aquelas roupas enormes...
Tive três amigas até hoje (ao meu ver, foram verdadeiras até onde elas acharam necessário). A primeira compartilhou comigo a saída da minha infância para a adolescência, demos juntas o ponta-pé inicial ao universo masculino, nos apaixonamos (por caras diferente é claro) ao mesmo tempo, zoamos as primeiras baladinhas, enfrentamos juntas diversas batalhas e até compartilhamos o mesmo quarto por um grande período. Até eu achar que ela estava me furtando a família (ah, com 14 anos eu posso te dizer que era egocêntrica em último grau). Mudei de bairro e mudei também de amiga... (mas sempre me lembro dela com carinho... hoje o nosso contato se limita ao tempo e espaço, ela se casou, tem sua filha e vai levando sua vida, mas a Kátia será memorável). A segunda amiga entrou em minha vida por acaso e já abraçou minha estória pessoal (principalmente sentimental) com todo o coração. Fomos nos descobrindo entre um trabalho e outro, entre conversas animadas enquanto esperávamos em um carro oficial o outro Office-boy retornar com sua pasta cheia de documentos assinados (em nossa saudosa Unicamp). A afinidade entre a gente era gigantesca. Mundos iguais, corações iguais. Eu sempre a considerei minha segunda irmã, aquela que entendia até minha respiração, que podia contar em todas as ocasiões.Dividimos também muita coisa, casa, quarto, família, amigos, irmãos (menos os namorados). Somos amigas até hoje (porque acredito que somos almas simpatizantes). Não penso duas vezes em ajudá-la e tenho certeza que essa amizade verdadeira é recíproca. Temos nossas diferenças (agora que estamos velhas então nem se fala), mas ela aos meus olhos será sempre a doce Iara -minha truta, minha comparsa, minha irmã de alma, minha amiga. Felizmente não consigo enxergá-la como parente (como de fato agora ela é, pois é tia do pai da minha segunda filha, a Luiza). Digo felizmente porque antes de qualquer coisa ela jamais perderá o título de minha amiga.
A terceira amiga chama-se Silvana. Poxa, como foi bom encontrá-la... A Sil é uma espécie de pessoa rara, de coração enorme, de uma fortaleza inarrável. Admirei essa menina logo de cara e compartilhei com ela bons momentos de minha vida também. Pena que o destino nos distanciou. Trabalho (muito trabalho), correria, horários diferentes, bairros distantes, etc, etc... mas eu não poderia me esquecer dela.
Mas voltando ao assunto (do título) eu quero postar que as amizades verdadeiras estão em extinção. Há pessoas que já viveram o bastante para afirmar que amigos são raros ou que nunca os tiveram... Sou um caso a parte como eu disse – totalmente fora da regra. Cultivo os amigos como uma planta rara, de difícil cultivo, afinal o adubo essencial está dentro de cada um, da maneira que enxerga o semelhante.

BjOo
Jana

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